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Hobsbawn e a história em pessoa na Flip
Em uma época em que todos querem ser jovens –e parecer jovens–, Eric Hobsbawn, 86 anos, iniciou sua palestra na 1ª Festa Literária Internacional de Paraty, na noite de sexta-feira, falando das vantagens de ser velho. Logo a platéia percebeu que isso era desnecessário, pois o historiador mostrou que, quando aproveitamos os anos que passam para observar o mundo a nossa volta e mantemos a mesma vitalidade e a mesma curiosidade–, o tempo está a nosso favor. Tal é a força de seu exemplo e de suas palavras que, ao final, muitos ficaram com uma suspeita: é possível que só sejamos capazes de entender plenamente o que Hobsbawn tentou nos dizer quando chegarmos perto de sua idade.
Mais do que fazer profundas análises sobre a história do século 20 –que ele testemunhou na sua maior parte e que foi objeto de muitos de seus estudos–, Hobsbawn expôs sua atitude diante da história e sua visão do mundo, um misto de pessimismo pelo que passou e esperança pelo que virá. "Se o ser humano sobreviveu ao século 20, pode sobreviver a qualquer coisa", afirmou. É às duas grandes guerras mundiais, acima de tudo, que ele parece se referir. Guerras que deixaram profundas marcas no homem europeu e no próprio historiador. Sobre o futuro, Hobsbawn preferiu não fazer previsões, por entender que todas estão fadadas a não se confirmar, mas disse esperar que a humanidade possa superar a visão maniqueísta e fundamentalista de que o mundo se resume à luta entre o bem e o mal.
"Tente entender, não apenas coletar dados", afirmou Hobsbawn. O conselho foi dirigido a um jovem historiador que lhe pediu um caminho a seguir. Mas pôde ser aproveitado por toda a platéia. Assim como outros, de igual simplicidade e profundidade. "Se não for para escrever com honestidade, não vale a pena escrever", disse. Para quem fez do ato de escrever –e de "convidar à leitura"– sua vida, é como se sugerisse: se não for para viver com honestidade, não vale a pena viver.
DETALHES DA PALESTRA
- Platéia de famosos: de Pedro Côrrea do Lago, presidente da Biblioteca Nacional, ao banqueiro Pedro Moreira Salles, passando por Roberto Muylaert, e a muitos dos escritores que se apresentarão na FLIP, como Julian Barnes, Milton Hatoum, Ana Maria Machado, Zuenir Ventura, Drausio Varella, Eduardo Bueno e outros. Se em Paraty você está trombando com famosos o tempo todo na rua, na palestra de Hobsbawn a concentração era absurda.
- Abriu-se uma janela de oportunidade para um mundo melhor, mas já se fechou. Segundo o historiador, a grande chance de o mundo pegar um caminho melhor ocorreu de fato entre o final da Segunda Guerra e o início do Governo Bush, mas já se perdeu, com a criação do conceito de "defesa agressiva" pela maior nação do mundo.
- Quando perguntado sobre o que ele vê para o Brasil, Hobsbawn mudou o verbo: "Eu não vejo, eu desejo. Eu desejo espero que o Brasil um país menos injusto e menos desigual. Agora, o que eu desejo para o Brasil, desejo para todos os países do mundo".
- Dois banqueiros que se encontram, bebem juntos e cantam "A Internacional Socialista". Essa foi a metáfora que Hobsbawn utilizou para ironizar o que aconteceu no século 20, dos extremos.
- Conselho de Hobsbawn: evitar a história política, que se repete muito mais. O historiador contou que tentou fazer história a partir de tudo. Bandidos, mendigos, jazz...É uma das lições que recomendou a todos os historiadores.
- Alerta de Hobsbawn: não se pode pensar em mais história nacional. Todo enfoque de história será mundial.
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