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Festa Literária Internacional de Paraty
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Esperança na jovem literatura

Definitivamente, há esperança na jovem literatura brasileira. As três mais novas gerações foram muito bem representadas ontem em Paraty, em encontros concorridos. A geração do gaúcho Tabajara Ruas, nascido em 1942, que ele mesmo definiu como dos escritores que queriam ser cineastas; a geração do escritor Luiz Ruffato, que exibe o domínio do texto fragmentado; e a novíssima geração de Chico Mattoso, João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian, todos na faixa dos 25 anos de idade, que participaram de uma espécie de "Big Brother Literário" para escrever um conto cada um inspirado em Paraty, onde ficaram "trancados" por 15 dias, e mostraram um domínio de linguagem surpreendente, com a prosa influenciada pelo som da poesia.

Luiz Ruffato leu um dos contos (de título "Sulfato de Morfina") do livro de contos que ele está escrevendo, sob o título provisório de "Mama Sono Tanto Felice". A narradora é uma mulher que convive com a mãe com câncer que morre aos poucos em sua casa e que, enquanto cuida da casa e das crianças, relembra a história da família inteira, de imigrantes italianos. Ela lembra como o pai morfinou; como, para um dos irmãos, era tão natural bater nos seus quanto comer, beber, cagar; como outro casou com as terras de uma Benvenuti. "Uma maldição desembarcada no navio Carlos R em Santos:.

Quatro trechos de "O Cercado de Juvêncio Gutierrez" foram lidos por Rúas. Escrito em 1990 e relançado ontem e Paraty, o9 livro traz uma história thriller que se passa na cidade de Uruguaiana (RS), sua cidade natal, fronteira do Brasil com a Argentina. O mistério a ser descoberto é por que Juvêncio (contrabandista que se auto-exilou na Argentina e tio do narrador) voltou para Uruguaiana. O primeiro trecho causou grande impacto na platéia: é o narrador, então um menino de 8 anos, querendo entrar na "tapera do cachorro louco", da qual todos eram proibidos de se aproximar. Um dia, sua curiosidade vence o medo, ele vai e descobre que o cachorro louco não é cachorro, mas....uma mulher. Na seleção dos trechos lidos, Rúas conseguiu trazer o suspense do livro para sua palestra.

Tabajara Ruas elogiou muito a literatura do colega de palco Luiz Ruffato. A fragmentação da escrita ele atribuiu também a uma diferença de gerações. "Não sei se Ruffato vai concordar, mas acho que esta é uma geração

Eis alguns destaques da palestra dos três rapazes:

• De todas as palestras já ocorridas na FLIP, a que mais teve perguntas do público foi a de Mattoso, João Paulo e Santiago. Parece que a timidez foi embora pelo fato de os autores serem jovens.
• Muitas respostas provocaram risadas na platéia: Qual é a ambição de um jovem escritor? Tornar-se um velho escritor. Qual é a diferença deste processo Big Brother em relação a seu processo criativo? Toda a diferença, porque eu não tenho processo nenhum.
• A solidão foi o que Paraty despertou em comum aos três escritores. Era como eles se sentiam. Além disso, comentaram, era baixa temporada e a cidade histórica estava vazia.
• Vale a pena reproduzir alguns trechos da linguagem destes escritores. "Tinha essa bola na boca do estômago. Parecia girar em falso como um motor", "Frase saía da boca dela como geléia...Ele escutava digerindo a geléia"(Chico Mattoso); "A velha chorando atrás do espelho...a velha vai virar pedra" (João Paulo Cuenca); "Você sabe o que é ser mulher? Eu sei. ...Eu não sou escritora, Paulo Roberto". (Santiago Nazarian)
• Talvez a história que mais tenha encantado o público, como história, tenha sido a experiência "metalinguística" de Santiago: seu conto, narrado em primeira pessoa pela mulher de um escritor que tem de viajar para uma cidade e ficar lá até terminar o que está escrevendo. E a mulher é obrigada a ficar o tempo todo na pousada. Detalhe: o nome do escritor que oprime a mulher é Paulo Roberto, o mesmo nome do editor da editora Planeta que idealizou e coordenou a empreitada.

 
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