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O Brasil escancarado no palco da FLIP
As pessoas pareciam não acreditar no que ouviam. O psiquiatra e psicanalista Jurandir Freire Costa e o médico Drauzio Varella traçaram com poucas palavras um retrato (quase perfeito?) da crise que o país vive hoje e não tinha a ver com política e economia , como todos pensamos. Vivemos uma crise de autoridade, uma crise civilizatória, segundo Freire Costa. A violência urbana não vai ser curada enquanto não for estudada cientificamente, advertiu Dráuzio Varella.
Existem três fontes de autoridade na tradição européia (que herdamos), como explicou Jurandir: Justiça (as leis), tradição (o orgulho de ganhar a vida como trabalhador, por exemplo) e vidas exemplares. A sociedade brasileira sempre se baseou nas duas últimas fontes, mas, hoje, com a modernização feita por cima, ambas se tornaram ridículas para ela.
O que veio em seu lugar? A identidade de consumo (o consumismo), as identidades corporais (a preocupação absurda com o corpo) e as identidades marginais (a violência) . Mas nenhuma delas é suficientemente forte para ser fonte de autoridade, pois se diluem facilmente (como acontece com o corpo humano).
"Uma geração que só pensa em ser juvenil e magra e se descuida dos valores e das instituições é suicida", alertou Jurandir. É preciso encontrar uma saída. E soluções políticas não servem, acrescentou, pois são apenas soluções de urgência. É necessário dar uma solução cultural ao problema. Jurandir sugeriu que nos apeguemos à tradição cultural brasileira (principalmente com o racismo envergonhado e a religiosidade sem vergonha, que hoje trabalham a nosso favor), ao novo associacismo (as ONGs) e ao patriotismo ecológico. Para Jurandir, talvez assim se possa construir uma sociedade que volte a se preocupar em vencer a morte, seja criando a eternidade (o que passa por alguma forma de religiosidade), seja criando a imortalidade (por meio da arte).
Dráuzio focalizou o aspecto da violência. Disse que o pouco que se sabe sobre violência são seus três fatores de risco: infância sem carinho, crianças abusadas; adolescência sem limites e valores morais; e convivência com pares marginais (inclusive nas cadeias). Diante disso, afirmou, os números da violência no Brasil surpreendem por serem baixos -- não por serem altos. Sem planejamento familiar, não há como modificar nada. Dráuzio ainda leu um trecho de seu próximo (e triste) livro, sobre a probabilidade da morte, em que fala da morte de sua própria mãe quando ele tinha apenas 4 anos.
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