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Festa Literária Internacional de Paraty
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Relâmpagos de inteligência do poeta Ferreira Gullar

Festas foram feitas para celebrar. Nas festas de aniversário comemoramos o privilégio de mais um ano de vida ao lado daquela pessoa querida. Nas festas de colheita --do morango, do vinho, das flores etc-- homenageia-se a generosidade da natureza. Nas festas folclóricas celebra-se a resistência das tradições culturais.

Pois, então, o que celebrou a 1ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), encerrada no último domingo, dia 3 de agosto?

Acima de tudo (e acima dos próprios escritores que estiveram presentes), o prazer de ler e escrever; o amor pelos livros; a paixão (às vezes, tara) pela palavra --presente na poesia, na prosa, nos livros de história e até mesmo na música, como cantou Suzana Salles na quinta-feira: "Tem sílaba que leve oscila/ E cai como uma luva na canção".

Aquela literatura vista apenas e tão somente como objeto de estudo e caminho para uma pretensa erudição não esteve presente (e não fez falta).

Foi um encontro entre escritores e leitores, entre escritores e escritores, entre leitores e leitores --seja no auditório das palestras, sobre as pedras do calçamento original de Paraty, na Praça da Matriz, em bares, em restaurantes.

O ritual dessa festa se repetia a cada palestra e não podia começar de outra forma: a leitura pelo escritor de um fragmento de sua obra. Às vezes texto inédito, às vezes trecho de livro já publicado.

Quem não conhecia, descobria ali outro autor cujo trabalho merecia ser explorado, engrossando uma lista que só faz crescer: a dos livros a serem lidos.

Os fãs deliciavam-se com mais um presente de seu escritor predileto; ou se colocavam em prontidão à espera da nova obra, da qual puderam apenas experimentar um pedacinho (foi o caso, por exemplo, do novo livro de Milton Hatoum, que promete fazer com que seus leitores "superem" a amor por "Dois Irmãos").

Eric Hobsbawn, 86 anos, personificou na festa o prazer de escrever --definido por ele como um "convite à leitura"-- e de viver, sempre mantendo a curiosidade sobre as coisas que nos cercam, buscando compreender os fatos --e não apenas "coletar dados"-- e, fundamentalmente, com honestidade.

"Se não for para escrever com honestidade, não vale a pena escrever", afirmou. Foi aplaudido de pé durante longos minutos e, ao final de uma pergunta, ouviu uma declaração de amor e inglês ("I love you"), de um estudante brasileiro.

O ato de escrever foi um tema comum a muitos dos escritores presentes na festa, saciando uma das curiosidades recorrentes dos leitores.

No conto que leu na sexta-feira, Ana Maria Machado, explorou a diferenças entre o "por quê" e o "para quê" dos nossos atos e sua repercussão sobre a vida das outras pessoas. Mesmo sem se referir diretamente à literatura, ela, que já levou milhares de crianças ao mundo dos livros, deixou a impressão de ter revelado o que a motiva: o "para quê", para estimular as pessoas a buscar respostas e sair dos "quartos sem janela" em que se encontram.

Os entusiasmados aplausos da platéia foram traduzidos em palavras por uma educadora que se levantou para "apenas" para agradecer por aquela emoção.

Julian Barnes, comemorado autor de "O Papagaio de Flaubert", falou um pouco sobre seu caminho até se tornar um escritor. "Não fui uma dessas crianças precoces", garantiu. E compartilhou uma descoberta consoladora: "Ninguém tem autoridade para dizer que é um escritor. Mas também ninguém pode dizer que você não é um escritor".

Ao declarar que qualquer um pode contar (e escrever) uma boa história, Hanif Kureishi, --autor, entre outros de "Minha Adorável Lavanderia"-, incomodou a platéia, que parecia sempre querer um grau maior de complexidade (e sofrimento, mesmo) no ato de escrever. Em seguida emendou: "Contar histórias é fácil, mas importante".

Os leitores que participaram da festa também puderam conferir a importância para os escritores da busca pela forma ideal, de novas experiências de linguagem e oonferir de perto o trabalho de quem está tentando fazer isso no Brasil, como Luiz Ruffato, autor do premiado romance "Eles Eram Muitos Cavalos". Para ele, o "esforço da forma" é fundamental.

Don DeLillo se autodefiniu com um escritor que fala contra o poder do estado. Mas alertou: antes de tudo vem a linguagem, "a preocupação com cada parágrafo". Ele contou que começou escrevendo sobre o Brooklyn, bairro de Nova York, mas depois buscou algo maior, mais ambicioso, num paralelo com os pais imigrantes italianos que deixaram sua terra natal.

Se, no penúltimo dia da festa, ainda faltasse quem despertasse na platéia o brilho no olhar, Ferreira Gullar estava lá. Com uma capacidade de encantamento surpreendente (pelo menos, para os que acham que ficar mais velho significa ver tudo com as mesmas cores), falou sobre seu mais recente livro, "Relâmpagos", em que escreve sobre algumas de suas obras de arte prediletas.

E, tal como um menino de cabelos brancos, Ferreira Gullar mostrou a todos que "o rei está nu", ao expôr o esgotamento do atual momento das artes plásticas e risco de ver a literatura seguir caminho semelhante se fossem levadas ao extremo experiências de linguagem como a poesia concreta e a prosa de James Joyce em Finnegann's Awake.

Luis Fernando Veríssimo veio, mas teve de ir embora antes. Não pôde ficar (por problemas de saúde na família), mas deixou um texto para ser lido, em respeito pela festa e pelos leitores --que queriam vê-lo, é verdade, mas que, como ele bem sabe, queriam principalmente ouvi-lo.

Falta dizer que, como fazemos para receber os amigos, Paraty se arrumou toda. Não apenas as ruas e as casas comerciais, mas os moradores mostravam-se felizes por receber "esse pessoal legal", como definiu uma moradora na fila para a palestra de Don DeLillo.

Ao final, como nas festas mais animadas, que deixam saudades, os "amigos dos livros" foram embora já pensando na celebração do próximo ano.

 
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