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Bom humor toma conta da FLIP

O bom humor abriu e fechou a tarde de ontem. No encontro da crônica carioca, gargalhadas estridentes e assobios foram as respostas a crônicas lidas por Zuenir Ventura e Joaquim Ferreira dos Santos, enquanto um estado de encantamento tomou conta de quem ouviu o poético texto "Palavra" de Adriana Falcão e a crônica triste (uma contradição em crônica) de Zuenir. E, na palestra sobre o humor na literatura, Millôr Fernandes fez um show de provocações, acompanhado de Ruy Castro.

A primeira questão da primeira palestra era se a crônica era efetivamente um gênero carioca, e todos concordaram que sim, observando, contudo, que se escrevem boas crônicas no país inteiro. "É coisa de cidade em que anda a pé na rua", disse Adriana Falcão, citando Ruy Castro. "Antonio Maria andava na rua, mas Rubem Braga fica observando o Rio de Janeiro do seu apartamento", completou Zuenir.

Quando os autores leram seus textos, entretanto, a "nacionalidade" da crônica pareceu questão menor. Pela amostra dada, a força da crônica está em seu humor sentimental, na mistura entre melancólico e risível -- em algo que acontece, por exemplo, nas grandes sitcoms da televisão americana, mas que não tem paralelo na TV brasileira. Foi assim, pelo menos, com as quatro crônicas lidas para o público.

A pretexto de comentar o hit do verão 2003 nas praias cariocas, o rockinho "Já sei namorar", dos Tribalistas, Joaquim Ferreira dos Santos falou da força catártica das mulheres atuais -"Eu não sou de ninguém"-- e encerrou dizendo que aos homens, que tanto poder perderam, só resta coadjuvar.

Adriana Falcão fez uma crônica não-crônica, segundo ela, ou uma crônica-poema, para quem ouviu: "A palavra nuvem chove, a palavra triste chora, a palavra tempo passa, ...a palavra faca corta... Toda palavra diz o que quer e nunca desdiz depois... A palavra sou não vira casaca. ...Palavras sempre sabem o que querem..."

As gargalhadas e assobios foram para a crônica de Zuenir sobre um idoso na fila do Detran (autobiográfica), e a crônica assumidamente triste, também dele, questionava a razão cética, defendendo que não há "nada melhor do que um sentimento usado, pois se idéias vivem da originalidade, sentimentos gostam de redundância."


A primeira questão da segunda palestra foi a relação entre humor e mau humor. Mas isso foi só desculpa para o show de Millôr que então começava, com Ruy Castro contente em servir de escada, como se diz no teatro, para o colega. Primeiro, Millôr questionou Ruy: "Com seus livros (a trilogia "O Melhor do Mau Humor"), ficamos todos os humoristas com fama de mal-humorados", reclamou. "Onde você viu humorista mal-humorado?

Depois, Millôr leu textos de apresentação dos companheiros de palco, segundo ele, "pouco conhecidos" do público: além de Ruy Castro, haveria Luiz Fernando Veríssimo, mas este teve de ir embora devido a um problema de saúde de sua mãe. Os textos tiravam sarro de ambos, naturalmente. "São dois dos três homens que enriqueceram publicando livros no Brasil. "

Então, Millôr disse que leria um texto inédito seu. "Eu o escrevi em 1961, mas como a maioria da platéia não atinge 40 anos de idade, o texto é inédito." Logo em seguida, resolveu fazer perguntas a si mesmo, em vez de esperar pelas do público.

Houve poucos momentos que não deram vontade de rir na palestra do humor -por exemplo, sobre o papel de resistência dos jornais alternativos comandados por Millôr (Pif-Paf e Pasquim) durante a ditadura militar. Mas, em geral, mesmo o assunto mais sério despertava o riso quando comentado por Millôr, como os dois livros dos ex-presidentes do Brasil José Sarney ("Brejal dos Guajas") e FHC ("Dependência e Desenvolvimento na América Latina") -- que ele analisou do ponto de vista literário em seu livro "Crítica da Razão Impura ou O Primado da Ignorância". "O livro de Sarney é a coisa mais idiota que eu já li e outro padece de uma idiotice igual, só que barroca", definiu.

Por fim, Millôr fez uma pergunta a Ruy, misturando dois dos livros deste: "Você acha que o Garrincha era um anjo pornográfico?" Risos e aplausos encerraram a sessão.

 
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