|
Escritores século 21 X leitores do século 19
O último palestrante de ficção da FLIP 2003 foi o premiado escritor norte-americano Don DeLillo. Considerado um dos maiores autores de língua inglesa da atualidade, DeLillo leu para a platéia trechos de seu último livro "Cosmópolis", que descreve um dia na vida do jovem e bilionário Eric Packer, especulador financeiro em Nova York, numa narrativa que parecia feita em "câmera lenta", desafiando o ritmo dos acontecimentos rápidos do livro. Em resposta a uma pergunta sobre a reação desfavorável de alguns críticos a "Cosmópolis", DeLillo declarou: "Muitas pessoas ainda estão lendo no século 19, e alguns de nós tentamos escrever no século 21".
Um dos aspectos marcantes de "Cosmópolis" é o fato de o personagem principal andar o tempo todo dentro de um limusine branca, com piso de mármore de carrara e até banheiro. Por quê? DeLillo explicou: "Há muitas limusines brancas e longas circulando pelas ruas estreitas e congestionadas de Nova York e nunca se questiona para onde elas vão à noite. Eu comecei a perguntar isso e ninguém sabia responder; ninguém ficava indignado com elas. Tampouco essas limusines dão sinais de estar desaparecendo, apesar da recessão. Acho que a limusine branca vai além da demonstração do poder de consumo. O que me impressiona é o fato de ser a exibição do dinheiro pelo dinheiro, pois não se pode ver quem está lá dentro".
DeLillo é um dos representantes maiores da nova geração de escritores que faz uma mediação entre a ficção e o comentário ensaístico da realidade, como bem definiu seu tradutor no Brasil, Paulo Henriques Brito -- que foi quem o apresentou na FLIP. O escritor também comentou outros dois livros seus: "Submundo" (o mais ambicioso de todos, com uma linguagem que se vale de muita gíria para tratar da guerra fria) e "Libra" (um livro sobre história e sonhos, protagonizado por Lee Oswald, preso pelo assassinato do presidente dos EUA John Kennedy). Para que os tradutores mundo afora conseguissem traduzir a gíria de "Submundo", o atento DeLillo convocou-os para um workshop e orientou-os pessoalmente.
Para muitos analistas, DeLillo escreve sobre paranóia. Para ele, escreve contra o poder, contra o Estado, contra a máquina de desperdício que caracteriza a cultura ocidental. Ele ironiza todas as formas de poder. Na FLIP, ironizou, por exemplo, o fato de dar uma entrevista coletiva em Paraty (a primeira em sua vida). Tanto que resolveu inventar um fato importante para anunciar e declarou que seu país, os EUA, haviam invadido a Síria. Ironizava os jornalistas ou ironizava seu país?
(O evento se encerrou com o escritor e jornalista Eduardo Bueno levando ao palco da FLIP a história da exploração do ouro no Brasil e em Paraty, narrando-a como quem narra uma saborosa aventura. Para fechar a noite, estava programado um show de Tom Zé.)
|