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Inspiração na realidade e nas viagens

O escritor norte-americano Daniel Mason, autor do aclamado "O Afinador de Piano", e o brasileiro Bernardo Carvalho, que escreveu o belo "Nove Noites", fizeram lotar a Casa da Cultura na manhã desse domingo, dia 3. Os autores Patrícia Melo, de "Elogio da Mentira", e Marçal Aquino, de "O Invasor", foram as estrelas do início da tarde. Pontos em comum? O fato de serem todos jovens e o fato de beberem muito na fonte da realidade.

"Eu escrevo sobre o que vejo na rua", disse Marçal Aquino. "Eu escrevo sobre a temática urbana, que contém elementos como crueldade, insensibilidade, desespero", afirmou Patrícia Melo. "A maior parte do que escrevo eu vejo a partir do ônibus", garantiu Daniel Mason. E mesmo Bernardo Carvalho, embora afirmando não ter nenhuma regra para criar, mostrou que frequentemente visita o mundo exterior, como fez em seu último livro sobre uma viagem à Mongólia ou em "Nove Noites", em que tratava dos índios da Amazônia.

Realidade é algo que rende conversa entre escritores e leitores, como já provara a palestra da Dráuzio Varella e Jurandir Freire Costa. "Estamos fartos da realidade, Queremos mundos novos, inventados", declarou uma leitora na platéia de Patrícia e Marçal. Foi Aquino quem respondeu: "Veja bem: nós não escrevemos sobre a realidade. Nós escrevemos mentiras. Nós inventamos, em cima da realidade. Nas vezes em que escrevi algo que realmente aconteceu e dei para os outros lerem, as pessoas acharam que era delírio. A realidade é inverossímil". Risadas gerais.

Os quatro escritores leram trechos de livros e falaram de seu processo criativo:

- Bernardo Carvalho acaba de escrever um livro sobre sua viagem à Mongólia, onde passou dois meses e rodou 5.000 km de carro. Inspirado no clichê dos livros de aventura do século 19, ele dividiu o livro em duas partes: o diário de viagem de um brasileiro que foi para lá e desapareceu e o diário de outro brasileiro que viajou para lá em busca do primeiro. Ele conta, por exemplo, sobre os nômades que foram "estragados pelos turistas", sobre os cavalos mongóis que "se assustam com as coisas mais estranhas como se vissem espíritos", sobre os homens do deserto só beberem enquanto "as mulheres trabalham como umas mulas", sobre renas e camelos. Segundo ele, uma das forças do livro é esse embaralhamento entre ficção e realidade.

- Mason leu uma cena de casamento e uma cena de funeral de seu livro, que se passa no sertão nordestino. Biólogo formado em Harvard e atualmente estudante na medicina na Universidade da Califórnia, Mason revelou que sempre viaja para escrever, para toda parte. "Não conseguiria escrever sobre Lampião estando em São Francisco, Califórnia", afirmou.

Ele contou que se impressionou com a literatura de cordel e com Lampião -- com o fato de ele ser um homem que bordava, com seu apreço pelo cinema, com sua mistura de Idade Média e modernidade; "Maria Bonita tinha um penteado europeu!". Mason disse ainda que desde os 7 anos de idade se interessa pelo Brasil, desde que viu o filme "Vidas Secas" com seu pai.

- Patrícia leu para o público o primeiro capítulo de "Valsa Negra", cujo tema principal é o ciúme ("outra forma de violência") e cujo personagem central é um maestro na faixa dos 50 anos que rege uma importante orquestra, e troca sua "vida enfadonha" ao lado da mulher Tereza por um "pacote de incerteza e angústia" ao lado de Marie, bem mais moça do que ele. Patrícia não comentou diretamente sobre a pesquisa da realidade para abastecer a ficação, mas, não por coincidência, esteve o tempo todo de Flip acompanhada do maestro John Neschling, da Osesp.

- Marçal antecipou seu novo livro, sobre o amor. "Está cheirando a final feliz, mas não posso garantir. Quando eu começo a escrever, nunca sei o que vai acontecer. Em 'O Invasor', achei que o matador ia se dar bem e ele morreu.Sofro de confusão mental." O livro conta duas histórias de amor que se cruzam numa cidade de garimpo do Pará, cidade cheia de prostitutas, "que são as primeiras a farejar ouro". O narrador, fotógrafo, se apaixona à primeira vista pela fotografia da mulher, que conhece em seguida, e descreve com um "par de olhos cor de lodo de bauxita" e "um único defeito físico - uma aliança na mão esquerda". "Acho mesmo que eles vão acabar de mãos dadas, ainda que uma das mãos esteja decepada", brincou o escritor.

 
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