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"O mais importante personagem brasileiro dos meus livros é um papagaio morto e empalhado"
Ser apresentado pela inglesa Liz Calder em pessoa, a editora da Bloomsbury que tem casa em Paraty e criou a FLIP, foi um diferencial e tanto. Mas tratou-se de algo simplesmente lógico: o inglês Julian Barnes, um dos maiores nomes da literatura atual, foi descoberto por Liz Calder há 25 anos.
Apaixonado pela França ("já pesquisa sobre o que é preciso para pedir asilo na França") e pelo escritor Gustave Flaubert, Barnes leu um trecho de seu livro mais famoso, "O Papagaio de Flaubert", e revelou à platéia diante dele que o papagaio era seu principal personagem brasileiro (risos).
Eis o enredo: no final dos anos 70, um médico inglês de 60 anos de idade, obcecado por literatura, resolve visitar a França por duas razões -- para conhecer campos de batalha da Segunda Guerra Mundial e para ir à casa onde Flaubert escreveu.
O médico gostava particularmente do conto "Coração Simples", que Flaubert escrevera cem anos antes, no qual a empregada Felicité ganha um papagaio no final da vida e fica muito ligada a ele. O papagaio morre, ela o taxidermiza e passa a crer que ele possui poderes mágicos. É uma junção do trágico e do cômico da vida.
Na história de Barnes, o médico de Barnes procura o papagaio que inspirou o conto de Flaubert, dedica-se a estudá-lo, liga-se a ele como acontecera com Felicité. Mas ocorre que, depois, conhece outro papagaio empalhado, que é identificado como o verdadeiro papagaio de Flaubert. E sente-se traído.
Num dos bate-papos mais descontraídos de toda a FLIP, Barnes contou que seus primeiros escritos foram histórias de fantasma, pois achava as histórias da vida real muito assustadoras. E disse que até hoje não afirma ser um escritor. "Ninguém tem autoridade para dizer que é um escritor. Mas também ninguém pode dizer que você não é um escritor."
Barnes comentou ainda sobre sua coluna de gastronomia num jornal inglês e lembrou as "cartas de ódio" que recebeu quando sugeriu uma receita que não funcionava muito bem. "Todo mundo acha que pode cozinhar bem, assim como todo mundo acha que bom ser bom de cama. Mas isso não é verdade. Não sei o que vocês, brasileiros, pensam sobre o assunto" (risos).
Barnes disse que trabalha dez horas por dia nos textos -"as pessoas sempre perguntam se vivemos todas as coisas sobre as quais escrevemos; só se a vivemos no sofá da sala". Admitiu que sofre com a seleção inglesa de futebol e contou sobre sua experiência de escrever a história de um ditador do Leste Europeu e vê-la lida na Bulgária quase ao mesmo tempo que o ditador búlgaro era julgado. A platéia adorou Barnes.
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